Por trás do personagem de “paladino da verdade”, existe um ex-gestor que precisa explicar a própria trajetória antes de querer dar aula de administração aos outros.
Tem político que enfrenta a própria história.
Tem político que aprende com os próprios erros.
E tem político que prefere editar a história.
Tiago Fernandes parece ter escolhido o terceiro caminho.
Hoje, nas redes sociais, ele desfila como se fosse uma espécie de fiscal-geral da República municipal: aponta o dedo, acusa adversários, seleciona trechos de discursos, monta vídeos cuidadosamente editados e tenta vender a imagem de homem acima de qualquer suspeita política.
É uma estratégia.
E, convenhamos, até que é criativa.
O problema é que existe um detalhe inconveniente:
ELE JÁ FOI GESTOR.
E não foi um gestor de gabinete decorativo.
Foi secretár
io de Saúde de São José de Ribamar.
Depois foi para a estrutura estadual.
Chegou à Secretaria de Estado da Saúde.
Ou seja: teve caneta, teve responsabilidade e teve oportunidade de mostrar na prática a competência que hoje vende no discurso.
Por isso, antes de apontar o dedo para todo mundo, talvez fosse interessante olhar para trás.
Porque o passado não aceita edição.
A RIBAMAR QUE O INSTAGRAM NÃO MOSTRA.
Durante sua passagem pela Saúde de São José de Ribamar, Tiago esteve no comando da pasta justamente em um dos períodos mais delicados da história recente: a pandemia.
E junto com a pandemia vieram denúncias, questionamentos, contratos controversos e uma crise política que chegou à Câmara Municipal.
Foi anunciada a chamada CPI do Covidão.
E aqui é preciso ser absolutamente preciso:
A CPI DO COVIDÃO NÃO FOI INSTALADA.
Portanto, não existe relatório final daquela comissão para dizer que Tiago foi culpado de alguma coisa.
Mas também não existe motivo para fingir que a iniciativa nunca existiu.
Ela foi anunciada.
Havia questionamentos.
Havia cobrança.
Havia uma proposta de investigação.
E ela não avançou.
POR QUÊ?
Essa é a pergunta.
O que aconteceu com a CPI?
Por que não foi instalada?
Quem recuou?
Houve decisão formal?
Qual foi o destino daquela apuração?
Quem hoje se apresenta como campeão da transparência deveria ser o primeiro interessado em responder.
OS CONTRATOS QUE VIRARAM PERGUNTAS
Naquele período, reportagens levantaram questionamentos sobre contratos e pagamentos da Saúde municipal.
Um dos casos citados envolvia R$ 150.990 pagos à I9 Saúde.
Outro envolvia aproximadamente R$ 2,7 milhões em contrato com a Bentes Sousa para fornecimento de insumos.
Também surgiram questionamentos relacionados a vínculos empresariais.
Mais uma vez: questionamento não é condenação.
E é justamente por isso que a pergunta é legítima.
Se estava tudo correto, ótimo.
Mostre os documentos.
Explique os contratos.
Explique os pagamentos.
Explique a fiscalização.
Explique o que foi entregue.
E acabou.
O problema é querer usar a própria experiência administrativa como certificado de competência e, ao mesmo tempo, tratar qualquer pergunta sobre essa experiência como perseguição.
A PANDEMIA NÃO ERA UM FILME DE PROPAGANDA.
Enquanto hoje o candidato pode escolher o melhor ângulo para a câmera, naquele momento o cidadão não podia escolher o melhor ângulo para viver.
Era medo.
Era hospital.
Era fila.
Era família desesperada.
Era profissional de saúde trabalhando no limite.
Era morte.
Era uma cidade inteira tentando atravessar uma tragédia.
E, no meio disso, a gestão municipal era questionada.
Tiago chegou a reagir publicamente às críticas classificando seus críticos como “agentes do caos”.
Mas crítica não deixa de existir porque o gestor não gosta dela.
E cidadão não vira “agente do caos” simplesmente porque pergunta:
“O que está acontecendo?”
E ENTÃO ELE MUDOU DE CAMPO.
Depois de Ribamar, Tiago seguiu para o Estado.
A responsabilidade aumentou.
Muito.
Agora não era apenas a Saúde de um município.
Era a estrutura estadual.
Hospitais.
Regulação.
Alta complexidade.
Serviços especializados.
Planejamento regional.
Distribuição de insumos.
Uma rede gigantesca.
E, portanto, muito mais gente dependendo das decisões daquela secretaria.
Só que a realidade continuou produzindo aquilo que nenhuma campanha consegue editar:
CRISES.
HEMOMAR: QUANDO O PROBLEMA CHEGA AO MINISTÉRIO PÚBLICO
Em 2023, inspeção do Ministério Público do Maranhão no Hemomar encontrou estoques críticos de determinados insumos.
O alerta era sério: a falta de reagentes poderia comprometer transfusões e até afetar cirurgias.
Tiago foi notificado.
Depois, o MPMA registrou problemas envolvendo pacientes com hemofilia e anemia falciforme e cobrou providências relacionadas à falta de insumos.
Isso não é opinião.
Não é adversário eleitoral.
Não é blogueiro.
É órgão de fiscalização cobrando a Secretaria.
E esse é o ponto que o candidato precisa compreender:
quando você está no comando, não pode reivindicar todos os créditos e terceirizar todos os problemas.
REGULAÇÃO TAMBÉM NÃO É CULPA DO PREFEITO
Outro ponto incômodo é a regulação.
Tiago conhece o SUS.
Sabe que a responsabilidade é compartilhada.
Sabe que município tem obrigação.
Mas sabe também que o Estado tem responsabilidade enorme sobre regulação, leitos, média e alta complexidade e organização regional da rede.
O próprio Ministério Público tratou de questões relacionadas a regulação de leitos, planejamento regional e vazios assistenciais.
Então aquela conversa de apontar exclusivamente para os municípios simplesmente não fecha a conta.
NÃO EXISTE SUS DE UM CULPADO SÓ.
E Tiago sabe disso.
Porque ele esteve dos dois lados.
QUANDO A REDE ESTADUAL LOTOU, QUEM ERA O RESPONSÁVEL?
Em 2025, o Ministério Público cobrou providências da SES diante da superlotação das unidades públicas e do aumento das síndromes respiratórias.
Mais uma vez, não se trata de dizer que Tiago pessoalmente causou cada fila ou cada paciente.
Isso seria intelectualmente desonesto.
A questão é outra:
qual era a responsabilidade institucional da gestão que ele comandava?
É essa pergunta que o eleitor tem direito de fazer.
A MÁGICA POLÍTICA
E aí chegamos ao presente.
O ex-secretário virou comentarista.
O gestor virou fiscal.
O homem que precisa responder pela própria trajetória aparece nas redes dizendo quem deveria administrar melhor.
E a fórmula é quase perfeita:
corta o contexto → escolhe o culpado → coloca uma legenda forte → publica → espera o adversário responder.
Pronto.
Nasceu uma crise política.
E Tiago ganhou alguns segundos de protagonismo.
Só que existe um problema:
POLÊMICA NÃO É BASE ELEITORAL.
E essa talvez seja a parte que mais incomoda.
O AQUÁRIO DE TUBARÕES
Tiago está se movimentando em um partido forte, o MDB, dentro de um cenário político onde existem nomes com mandato, grupo, estrutura, alianças e densidade eleitoral.
É um verdadeiro aquário de tubarões do voto.
Ali, ninguém deveria imaginar que basta aparecer mais.
É preciso construir base.
Construir alianças.
Construir confiança.
Construir voto.
Construir presença.
E, quando isso não acontece na velocidade desejada, existe uma tentação óbvia:
fazer barulho.
Atacar.
Provocar.
Responder.
Criar polêmica.
Forçar o adversário a falar.
Porque existe uma velha regra da política:
se você não consegue ocupar o centro do palco pelo tamanho da sua força, tente ocupar pelo tamanho do tumulto.
Pode funcionar.
Mas também pode revelar exatamente o contrário do que se pretende.
PORQUE QUEM ATACA DEMAIS COMEÇA A SER PERGUNTADO
E essa é a armadilha.
Quanto mais Tiago aponta o dedo, mais alguém pode perguntar:
“E você?”
Quanto mais fala de gestão:
“E a sua?”
Quanto mais fala de Saúde:
“E Ribamar?”
Quanto mais fala de transparência:
“E a CPI do Covidão?”
Quanto mais fala de responsabilidade:
“E as cobranças que sua gestão recebeu?”
Quanto mais fala de eficiência:
“E os problemas de insumos e regulação?”
Quanto mais tenta construir o personagem de homem que sabe tudo:
“Então explique tudo.”
É AÍ QUE A MAQUIAGEM COMEÇA A DESCASCAR
Não precisamos chamar Tiago de criminoso.
Não precisamos inventar condenação.
Não precisamos atribuir a ele pessoalmente cada problema da Saúde.
Não precisamos.
A própria trajetória já oferece perguntas suficientes.
E perguntas legítimas são muito mais perigosas politicamente do que acusações inventadas.
Porque acusação falsa pode ser derrubada.
Pergunta documentada permanece.
O ELEITOR NÃO ESTÁ COMPRANDO UM REELS
Essa talvez seja a maior diferença entre política de internet e vida real.
No Instagram, você tem 40 segundos.
No SUS, o cidadão pode esperar horas.
No vídeo, você corta a pergunta.
Na emergência, o paciente não consegue cortar a espera.
Na campanha, você escolhe a legenda.
Na vida real, a família enfrenta a consequência.
No vídeo, tudo parece simples.
Na vida real, não é.
ENTÃO VAMOS PARAR COM O TEATRO
Tiago quer ser deputado?
Que seja candidato.
Quer falar de Saúde?
Fale.
Quer criticar prefeito?
Critique.
Quer desafiar adversário?
Desafie.
Mas tenha coragem de aceitar a mesma régua.
Porque ninguém pode querer ser juiz dos outros e réu apenas quando interessa.
Quem ocupou secretaria precisa responder pela secretaria.
Quem teve caneta precisa responder pelas decisões.
Quem quer usar a experiência administrativa como currículo precisa aceitar que essa experiência seja examinada.
Inteira.
Sem maquiagem.
Sem filtro.
Sem edição.
TIAGO FERNANDES NÃO PRECISA DE UM INIMIGO. PRECISA DE UM ESPELHO.
Talvez seja essa a peça que está faltando nessa campanha.
Um espelho.
Porque enquanto ele aponta para todo mundo, alguém precisa lembrá-lo:
você também esteve lá.
Você também comandou.
Você também decidiu.
Você também foi cobrado.
Você também deixou perguntas.
E agora você quer voto.
Então responda.
Não com vídeo.
Não com ataque.
Não com ironia.
Não apontando para o prefeito.
Não apontando para o adversário.
RESPONDA PELO SEU PRÓPRIO CURRÍCULO.
Porque o eleitor não está escolhendo o melhor editor de vídeo.
Está escolhendo alguém para ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa.
E deputado não governa com corte de Instagram.
Governa, ou fiscaliza com responsabilidade, voto e consequência.
E A PERGUNTA FINAL É SIMPLES...
Tiago Fernandes quer ser o homem que vai ensinar todo mundo a administrar.
Tudo bem.
Mas antes de subir no palanque para julgar a gestão alheia, talvez seja conveniente abrir os próprios arquivos.
Ribamar.
Pandemia.
CPI do Covidão, anunciada, mas não instalada.
Questionamentos sobre contratos.
Mudança para o Estado.
SES.
Regulação.
Insumos.
Hemomar.
Cobranças do Ministério Público.
Superlotação.
Tudo isso faz parte da história.
E história política não funciona como Reels.
Você não escolhe os 30 segundos que serão lembrados.
O ELEITOR TEM O DIREITO DE VER O FILME INTEIRO.
E talvez seja justamente isso que Tiago Fernandes mais precise temer nesta eleição:
não o ataque dos adversários.
A memória do eleitor.