Existe uma diferença abissal entre o político que reivindica e o político que coreografa.
O episódio protagonizado pelo vereador Joel do Churrasco (PL) não pode ser lido apenas como um momento de distração ou burrice digital. O buraco é muito mais embaixo. O que a confissão do parlamentar revelou foi a anatomia de um conchavo estrutural, um jogo de cartas marcadas onde o Poder Legislativo abdica de sua dignidade para atuar como linha de frente do marketing do prefeito Fred Campos.
A Engrenagem do "Teatro Combinado"
Para o cidadão que assiste de longe, a cena parece legítima: o vereador, preocupado com o La Belle Park, protocola uma indicação e "exige" asfalto. Dias depois, as máquinas chegam. O povo aplaude o vereador, o vereador elogia o prefeito, e o ciclo da ilusão se completa.
Mas a matemática do poder em Paço do Lumiar funciona no sistema de troca de favores (o famoso quid pro quo):
Nesse ecossistema de compadrio, a indicação parlamentar vira um cheque em branco de cumplicidade. O prefeito Fred Campos cede a "paternidade" de um pedaço de asfalto para o vereador usar de palanque eleitoral; em troca, Joel do Churrasco garante uma postura dócil e domesticada na Câmara, daquelas que não abre CPI, não investiga contratos e vota de olhos fechados tudo o que o Executivo quer.
A Morte da Independência dos Poderes
O Artigo 2º da Constituição Federal é claro: os Poderes são independentes e harmônicos. Mas em Paço do Lumiar, a harmonia virou submissão e a independência virou balcão de negócios.
Ao aceitar o papel de "caroneiro autorizado" pelo prefeito, o vereador Joel do Churrasco comete um estupro institucional contra o cargo que ocupa. Quem joga junto com o chefe do Executivo para faturar politicamente em cima de cronograma de secretaria não tem moral nenhuma para fiscalizar os milhões que entram nos cofres do município.
Como o vereador vai cobrar o preço do metro quadrado desse asfalto se ele estava no dia anterior no gabinete de Fred Campos mendigando o direito de dizer que a obra era dele? Não cobra. Vira cúmplice.
O Cidadão como Palhaço da Plateia
O que mais revolta nessa simulação é o profundo desprezo pela inteligência do povo liminense.
A política de Paço do Lumiar virou um grande reality show mal ensaiado. Enquanto o cidadão padece com postos de saúde desabastecidos e uma infraestrutura cronicamente deficitária, os parlamentares usam o mandato para encenar uma falsa proximidade com a gestão.
Joel do Churrasco, ao esquecer de desligar a sinceridade antes de ligar a câmera, acabou prestando um serviço involuntário à população: mostrou que a Câmara virou um puxadinho da Prefeitura de Fred Campos. O "asfalto garantido" que ele anunciou não é uma vitória do seu trabalho; é o preço que a prefeitura paga para manter os vereadores quietos, felizes e alimentados com curtidas no Instagram.
A máscara caiu, o roteiro foi queimado e o público finalmente entendeu que, nesse teatro, o povo é o único que paga o ingresso e sai de mãos vazias.
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